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Estudos & Pesquisas

O apocalipse é um bom modelo de negócios, parte 1

Primeiro de uma série - "Já vimos esse filme"

Gabriel Souto · 9 min de leitura

Em setembro deste ano, um pesquisador que passou três anos fazendo pesquisa de pretraining na OpenAI e na Anthropic pediu demissão e anunciou no X que as duas empresas estavam “apostando com as nossas vidas” numa corrida rumo à superinteligência autoaperfeiçoável. O post ultrapassou 165 milhões de visualizações. O Wall Street Journal publicou uma entrevista com ele antes da publicação do post no X; reconstruções dos horários colocam a matéria cerca de dezoito minutos antes do post. Em pouco tempo, uma conta que tinha apenas sete posts e seguia treze contas alcançou mais de cem milhões de visualizações com a sequência. Os três primeiros a amplificar eram dirigentes de ONGs de política de IA, todas, por coincidência, financiadas pelo mesmo doador, que também é um dos principais investidores da Anthropic. E há uma correção cronológica importante: Bernie Sanders e Greg Casar haviam anunciado o Ban Artificial Superintelligence Act em 3 de setembro, cinco dias antes do post de Coxon, propondo banir o desenvolvimento e a implantação de superinteligência, pausar temporariamente o desenvolvimento de IA avançada e criar uma nova agência federal de nível ministerial, assessorada por um conselho de especialistas em IA. Dario Amodei, CEO da Anthropic, posteriormente defendeu avaliadores externos embarcados e, em entrevista à CBS, falou em um “limite de velocidade” para o progresso da IA.

Trabalho com isso todos os dias. Uso esses modelos no escritório, leio as fontes primárias, acompanho o debate onde ele efetivamente acontece, que não é aqui. A primeira coisa que me ocorreu ao ver essa sequência inteira não foi medo do fim do mundo. Foi um incômodo de déjà vu. Eu já tinha visto esse filme.

Não é um rerun. É um remake.

Todas tardes de segunda a sexta-feira tinha (tem?) Sessão da Tarde e ela repetia “A Lagoa Azul”, e a gente ria porque era sempre igual, o mesmo filme idêntico passando de novo. Não é disso que estou falando. O que está acontecendo com a regulação de IA não é um rerun, é um remake. Mesmo roteiro, elenco novo, efeitos especiais melhores. O roteiro original é de 1887, com o Interstate Commerce Act, e de 1906, com a regulação das ferrovias, dos frigoríficos e dos remédios nos Estados Unidos. A história é a mesma. Trocaram a ferrovia por um LLM e o vapor por CGI de superinteligência.

Para entender o remake, é preciso conhecer o clássico. E o clássico foi mal contado.

A narrativa que todo mundo aprendeu diz o seguinte: as grandes empresas cresceram demais, abusaram do seu poder, os consumidores sofreram, e então o Estado, num gesto de contenção, criou a regulação para domar os monstros. É a história do herói que aparece no terceiro ato. É comovente. E está, na melhor das hipóteses, invertida.

O historiador Gabriel Kolko, estudando justamente a Era Progressista americana, mostrou algo desconfortável: em vários setores, foram as próprias grandes empresas que buscaram a regulação estatal. Não porque fossem altruístas, mas porque enfrentavam um problema que não conseguiam resolver sozinhas, a competição. Kolko chamou isso de capitalismo político: o uso do aparato coercitivo do Estado para obter no gabinete a estabilidade que o mercado teimava em negar.

Por que uma empresa dominante precisaria do Estado? Aqui está o coração da coisa, e é um ponto que Rothbard levou às últimas consequências. Um cartel privado é estruturalmente frágil. Combine com seus concorrentes cobrar cem, e cada um deles terá incentivo para, escondido, cobrar noventa e roubar seus clientes. Apareça um entrante novo cobrando setenta, e o acordo desmorona. O cartel privado tem um problema de enforcement: precisa convencer seus membros a obedecer, e não consegue.

O Estado consegue. Uma licença impede a entrada. Uma tarifa regulada proíbe a guerra de preços. Uma quota limita a produção. Uma norma técnica exclui o concorrente. O que o cartel não impõe voluntariamente, o Estado impõe compulsoriamente. Paul MacAvoy documentou isso nas ferrovias americanas: os acordos privados de tarifa viviam ruindo por trapaça, até que a intervenção regulatória retirou de cada ferrovia a liberdade de mexer sozinha no próprio preço, e o cartel, enfim, ficou estável. George Stigler deu a isso a forma econômica que faltava, com uma pergunta que devia estar tatuada na testa de todo regulador: quem demanda a regulação? A resposta, muitas vezes, não é o consumidor. É a própria indústria, porque regulação tem valor econômico: ela eleva o custo do rival, dificulta a entrada, e isso vale milhões para quem já está dentro.

A frase que resume tudo é esta: o cartel privado precisa convencer seus membros a obedecer; o cartel regulado pode obrigar seus concorrentes a obedecer.

O detalhe que torna o caso da IA mais grave, não menos

Onde o argumento fica interessante, a ferrovia de MacAvoy tinha uma barreira de entrada natural e altíssima: trilhos custam uma fortuna, e não dá para construir uma linha paralela do lado da existente. O Estado, ali, apenas estabilizava um oligopólio que a própria física já favorecia.

A IA é o oposto. A barreira natural é baixa. Um memorando interno do Google, vazado em 2023, dizia isso com todas as letras já no título: “Não temos fosso, e nem a OpenAI tem”. Hoje você instala um modelo aberto na sua máquina e roda sem pedir licença a ninguém. Modelos abertos menores, ajustados para uma tarefa específica, já batem os modelos de fronteira em casos reais, como classificar um ticket ou extrair uma cláusula, a um custo de dez a cem vezes menor. É verdade que, para capacidade geral, esses modelos locais ainda ficam quinze ou vinte pontos atrás; a vantagem vale na tarefa estreita e bem definida. Mas é exatamente na tarefa estreita e bem definida que mora o dinheiro recorrente de assinatura corporativa. É esse chão que treme.

E é isso que torna o caso mais radical que o de Kolko, não menos. Nas ferrovias, o Estado apenas reforçava uma barreira que a natureza tinha dado. Na IA, o Estado é chamado para fabricar uma barreira que a natureza não deu. A tecnologia se recusa a ter fosso, então é preciso cavar um fosso jurídico.

Como se cava esse fosso? Não dá para cartelizar os pesos de um modelo, você não licencia o que a China solta de graça no HuggingFace, nem o que roda no porão de alguém ou no meu Mini PC. A camada dos modelos é incontrolável, e é por isso que o pânico de “a IA vai nos exterminar” é, no plano da própria tecnologia, um pouco ingênuo (mas isso é assunto de um próximo texto). O que dá para cartelizar é a camada comercial, a de cima. Você a carteliza com responsabilidade civil, com certificação, com o tal “avaliador embarcado” que o Dario propôs. Repare na engenharia: um negócio “sem fosso” é convertido, por decreto, em negócio licenciado. Não estou inferindo intenção oculta de ninguém, o CEO disse isso na televisão. Está nos “autos”.

Contrabandistas e batistas

Falta uma peça, e é a mais elegante do arcabouço. Ela dá conta da parte que mais me incomodava nesse episódio todo: a tentação de tratar isso como conspiração.

As teses de “psyop orquestrada”, de que o demissionário é um agente pago, de que tudo foi coreografado, circularam bastante, e têm lá seus indícios curiosos. Mas conspiração é uma tese frágil: exige provar coordenação, intenção, coreografia. É a parte menos falsificável e mais fácil de desmontar. Não preciso dela. E ninguém que queira sustentar um argumento sólido precisa.

O economista Bruce Yandle deu, em 1983, o nome exato do mecanismo: bootleggers and baptists, contrabandistas e batistas. A imagem vem das leis americanas que proibiam a venda de álcool aos domingos. Duas plateias distintas apoiavam a mesma lei. Os batistas, por convicção moral sincera: beber é pecado. E os contrabandistas, por interesse puro: com as lojas fechadas no domingo, o mercado clandestino era todo deles. O batista dá a cobertura moral; o contrabandista fatura com a lei. Este é o ponto decisivo: eles nem precisam se falar.

Aplique ao episódio de setembro de 2026. O “batista” pode ser o pesquisador que alerta, sinceramente, para riscos existenciais; o “contrabandista”, nesta analogia, é quem poderia se beneficiar de barreiras regulatórias que o alerta ajuda a tornar politicamente vendáveis. Não é necessário afirmar que exista coordenação entre eles, nem que essa relação tenha ocorrido neste caso específico, para que o mecanismo econômico descrito por Yandle seja relevante. Não preciso decidir se o demissionário é sincero ou pago. O argumento funciona mesmo que todos sejam 100% sinceros, exatamente como a captura de Kolko não exige que ninguém entregue uma mala de dinheiro a um regulador. Estrutura dispensa conspiração. Basta o alinhamento de incentivos.

Isso é infinitamente mais robusto do que caçar prova de complô. Por isso a formulação certa não é “montaram um golpe”, e sim “os incentivos estão dispostos de tal forma que o resultado é indistinguível de um golpe, sem que ninguém precise ter tramado nada”.

Onde eu chego

Preciso creditar: David Sacks já apontou publicamente, sobre este episódio de setembro, o essencial: o duopólio de fronteira, a captura regulatória, o fato de que os “avaliadores independentes” estão entrelaçados com os investidores e o quadro da própria Anthropic, e que exigir o próprio marco regulatório como preço da “responsabilidade” se parece com chantagem do público. Ele viu o flagrante primeiro. O que trago é outra coisa: a genealogia. Mostrar que isto não é um acontecimento de 2026, é um remake de 1887, e a distribuição do elenco obedece a um roteiro de mais de um século. É um debate que, no Brasil, quase ninguém está fazendo com as fontes primárias na mão, e é essa lacuna que me interessa preencher.

A pergunta convencional diante de tudo isso é “quem capturou a agência reguladora?”. É uma boa pergunta, mas ela concede demais: pressupõe que existia, antes, uma agência neutra, depois corrompida. A pergunta mais radical, e a mais honesta, é anterior: por que precisamos, em primeiro lugar, de uma agência com poder coercitivo sobre esse mercado? Se a função dela é impedir o que não se sustenta voluntariamente, vale suspeitar que a existência dela é justamente o que permite que o insustentável se sustente.

Não estou dizendo que IA não tem riscos. Tem, e são reais, só que o risco real é o humano usando a ferramenta, não a ferramenta ganhando vontade própria, e já convivemos com bomba atômica e arma biológica sem terceirizar a fronteira do conhecimento a um cartel de três empresas. O que estou dizendo é mais estreito e, acho, mais útil: quando alguém que lucra com uma tecnologia sobe ao palco pedindo, com voz embargada, que o Estado a regule por segurança, o mínimo que se deve fazer é perguntar quem, exatamente, essa regulação vai deixar de fora.

Porque o apocalipse, se você olhar de perto o modelo de receita, costuma ser um péssimo destino e um ótimo negócio.

No próximo texto da série: por que o pânico com IA se parece tanto com uma religião, e por que religiões vendem tão bem.

Publicado originalmente no Substack.

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